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Pedro Fernando da Costa Vasconcelos passou 40 dos seus 63 anos observando o comportamento dos vírus

O pesquisador Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), passou 40 dos seus 63 anos observando o comportamento dos vírus, dos quais é um dos maiores conhecedores do mundo.


Sua equipe descreveu mais de 100 espécies de arbovírus (transmitidos por insetos) na Amazônia. Foi a primeira a detectar a presença do zika no cérebro de um recém-nascido, relacionando a infecção de gestantes com a microcefalia. Diagnosticou o primeiro episódio da febre do Nilo Ocidental no Brasil e estudou o comportamento do agente da febre amarela em macacos.


Atuando no Instituto Evandro Chagas, de Belém, investiga ainda o comportamento dos patógenos da dengue, chikungunya, hantavírus e raiva. Aqui, ele adverte que a ciência só conhece 0,1% dos vírus existentes no universo. Acredita que até um bilhão de espécies permanecem completamente desconhecidas e avisa que novas pandemias irão ocorrer. Recém recuperado da covid-19, ele foi entrevistado por email pelo Brasil de Fato.


"Devem emergir muitos vírus que vão causar epidemias, porém ficarão confinados em um ou, no máximo, dois continentes. Esses devem ser em número maior que os que venham a causar pandemias. E, portanto, talvez somados (ou em conjunto) causem maior número de casos e de mortes do que os que venham a causar pandemias", alerta.

Brasil de Fato RS: O senhor ficou surpreso com a pandemia do coronavírus ou era algo que já esperava?


Pedro Fernando da Costa Vasconcelos: Ninguém imaginava o impacto que causaria na população mundial, no comportamento das pessoas, nas reações dos governos. Houve uma transformação do mundo em que vivemos e que deve se estender por muitos anos, talvez décadas. O mundo pós-pandemia deve ser muito diferente de antes da pandemia.


Com o avanço da devastação na natureza e a presença humana em ambientes selvagens e antes protegidos, podemos dizer que novas pandemias fatalmente ocorrerão?


Sim, isso é certo. Quantos agentes virais vão atingir esse patamar de pandêmicos não sabemos, mas certamente outras pandemias por vírus até então desconhecidos devem ocorrer no planeta. Além desses, devem emergir muitos vírus que vão causar epidemias, porém ficarão confinados em um ou, no máximo, dois continentes. Esses devem ser em número maior que os que venham a causar pandemias. E, portanto, talvez somados (ou em conjunto) causem maior número de casos e de mortes do que os que venham a causar pandemias.


Seu trabalho envolveu identificar e descrever mais de 100 espécies diferentes de vírus. Que lição aprendeu com essa convivência com os vírus?


Que é preciso muito cuidado na sua manipulação durante os experimentos. Não deve se experimentar por experimentar. Não conhecemos como esses vírus novos, desconhecidos, se comportarão no laboratório, nos animais de experimentação e nos cultivos celulares.


Nos experimentos procuramos definir a patogenia dos mesmos nos animais, para conhecer os órgãos alvos preferenciais dos vírus. Assim saberemos como eles podem ou devem se comportar nos humanos, causando infecções ou doenças. Mas, por vezes, não funciona assim. Vide o caso dos coronavírus. Os conhecidos há mais tempo estão associados ao resfriado comum. Já os que emergiram recentemente estão associados com doença respiratória grave, caso dos vírus SARS, MERS e SARS-COV-2, este o causador da covid-19. 


Quais dos vírus que identificou podem representar um perigo para a humanidade?


É difícil especular. Muitos são relacionados com os vírus que causam doença grave em humanos, mas os isolados pelo IEC (Instituto Evandro Chagas) na Amazônia ou não causam doenças em humanos ou causam com quadro leve geralmente febril. Portanto, eu não me atrevo a propor que este ou aquele é mais propenso para emergir como patógeno de humanos.


Quais poderiam fazer o trajeto do animal para o homem como aconteceu com o novo coronavírus?


Diversos poderiam se tornar patógenos de humanos. Mas é bom lembrar que a maioria dos vírus que temos estudado e isolado na Amazônia, são arbovírus, ou seja, a transmissão e manutenção dos mesmos se fazem em um ciclo que envolve obrigatoriamente insetos hematófagos como vetores (transmissores), o que não ocorre com o coronavírus.


Assim sabemos que é muito mais fácil para um agente se tornar pandêmico se a transmissão do mesmo é respiratória como no caso dos coronavírus e do vírus da influenza. É possível um arbovírus se tornar pandêmico e temos exemplo deles, casos da dengue e da chikungunya. O Zika quase se tornou uma pandemia, mas felizmente durante sua emergência em 2015-2017 não evoluiu ficando (quase) restrito aos países do continente americano.

Novos vírus silvestres poderiam usar o Aedes como transmissor nas cidades.

O que poderia dizer sobre o alfavírus Mayaro e o orthobunyavírus Oropouche? Que ameaça representam?


São dois arbovírus, vírus enzoóticos (comuns a uma localidade) na Amazônia e periodicamente tornam-se epidêmicos, mas diferem entre si. O Mayaro causa doença febril exantemática com artralgias (dores nas articulações), enquanto o Oropouche causa doença febril e, por vezes, quadro de meningo-encefalite, mas autolimitada e sem registros (até agora) de óbitos, e cujas epidemias ocorrem em áreas urbanas periféricas ou em localidades próximas de matas ou recém colonizadas.


No Mayaro, os surtos são mais limitados e ocorrem em pequenas comunidades que adentram à floresta, pois o transmissor desse vírus, o mosquito Haemagogus, tem hábitos estritamente silvestres. As pessoas são infectadas ao entrarem na floresta.


Eles poderiam usar como vetores os mosquitos, como aqueles do grupo Aedes que já transmitem a dengue, chikungunya e zika?


O que muitos cientistas propagam é que esses dois vírus podem se urbanizar e serem transmitidos por Aedes aegypti. E, de fato, em estudos experimentais em Aedes aegypti e Aedes albopictus, ambos os vírus se replicaram nessas espécies de mosquitos que se adaptaram muito bem em ambientes urbanos e são associados com a transmissão de dengue, chikungunya e zika.


Que condições teriam para se expandir da Amazônia para o planeta?


Se Mayaro e Oropouche se adaptarem ao Aedes aegypti, certamente eles podem se disseminar onde exista esse vetor e até mesmo se tornar pandêmico, pois não existe imunidade para esses arbovírus na população fora da Amazônia. Mas, insisto, é preciso uma série de fatores atuando em favor para que esses vírus venham a se adaptar aos Aedes e daí se disseminarem. 

As ações humanas na floresta facilitam o escape de novos vírus.

O que a ciência, a medicina e os governos poderiam fazer para impedir tal expansão?


Muitos fatores podem ser trabalhados. Um deles é preservar a floresta onde circulam em ciclos enzoóticos entre animais e mosquitos silvestres. Hoje sabemos que as ações humanas sobre a floresta para os mais diversos propósitos, tendem a facilitar o escape de um vírus e a troca e sua adaptação a novos hospedeiros e novos vetores transmissores. Isso provavelmente foi o que ocorreu com o Oropouche que se adaptou ao seu vetor atual Culicoides paraensis (vulgarmente conhecido como maruim) e processo semelhante pode estar contribuindo também para essas emergências do Mayaro.


Seu trabalho está direcionado para os arbovírus. Existem os nativos, mas também os exóticos, como o vírus do Nilo Ocidental. Ele está presente no país? O que causa?


O vírus do Nilo Ocidental chegou nas Américas em 1999 por Nova York, quando ocorreu um surto no zoológico da cidade. Daí se disseminou pelos EUA e em 2003, quatro anos após, já havia atingido o país de costa a costa e também chegado ao Canadá. Em seguida, desceu para a América Central e finalmente a América do Sul.


Há registros desse vírus na Venezuela, Peru, Argentina e Brasil. Aqui nós isolamos o Nilo Ocidental de equinos no Espírito Santo e confirmamos diversos casos humanos e animais no Piauí e Ceará. O vírus parece que está se capilarizando silenciosamente, e esporadicamente tem sido associado com doença seja em humanos, seja em animais. O Nilo Ocidental deve no futuro continuar se tornando endêmico e paulatina e periodicamente emergir em pequenos surtos ou epizootias com raros casos em humanos.


E quanto ao vírus Nipah que causa encefalite e, em alguns casos, demência?


Esse é um vírus extremamente perigoso, mas não é arbovírus. É zoonótico, transmitido por morcegos na Ásia, onde é endêmico em países como Malásia, Sri Lanka, etc. Os surtos nesses países têm apresentado letalidade de aproximadamente 20% e a prevalência das sequelas neurológicas é bastante elevada, entre as quais a demência tem sido muito frequente. Mas eu penso que continuará como problema localizado no sudeste da Ásia.


Além do coronavírus, o Brasil convive em 2020 com o avanço da dengue em vários estados ao ponto de termos, hoje, mais de 820 mil casos. Como a dengue, uma doença discreta até os anos 1970/80, tornou-se um flagelo anual?


Pergunta interessante, mas, no caso do dengue, o fator humano foi fundamental na disseminação da doença ao facilitar a expansão do seu transmissor Aedes Aegypti. Se houvesse um controle vetorial eficiente, o dengue se limitaria a poucos casos (e também o chikungunya, zika e outros vírus transmitidos por esse mosquito).


Como os países fracassaram no controle vetorial do aedes, as epidemias se tornaram cada vez mais frequentes e com muito mais casos. E o Brasil é o país que mais notifica casos quase sempre acima de um milhão, e mesmo assim a subnotificação é muito grande. A [Organização Mundial de Saúde] OMS estima que, para cada caso notificado, ocorreriam entre 10-100 outras infecções clínicas e subclínicas e inaparentes. Portanto, dá para se ter ideia do impacto dessa arbovirose na vida do cidadão.

São uma loucura esses movimentos antivacinas.

A febre amarela foi outra moléstia que reapareceu...


Sim é verdade. O Brasil vivenciou uma grande epidemia entre 2016 a 2019 com mais de 2500 casos notificados e quase 100 mortes registradas. Um escândalo para uma doença com uma vacina ativa e eficaz há mais de 80 anos!


A vacinação é uma vitória humana na luta contra a doença e a morte, mas, recentemente, surgiram grupos antivacinas que, através de notícias falsas, questionam a eficácia e os benefícios da imunização...


São uma loucura esses movimentos antivacinas. É bom lembrar que todos eles (os pais) foram vacinados na infância, mas agora questionam a eficácia das vacinas e não querem que seus filhos sejam vacinados. A título de exemplo, vamos voltar à atual pandemia. Se nós tivéssemos uma vacina para a covid-19, certamente talvez nem 10% dos casos registrados e de óbitos teriam ocorrido.


A vacinação é muito importante. A única doença erradicada do planeta, a varíola, só se conseguiu isso graças aos esforços conjuntos dos países e da OMS. Há décadas ninguém morre de varíola. Muita gente nem sabe o que é, mas, no passado, foi uma doença terrível. A vacinação universal resultou na erradicação em definitivo. Aí eu pergunto: como ser contra as vacinas? A poliomielite é outro exemplo. Muito em breve devemos estar livres para sempre desses três vírus da pólio. E graças à vacinação universal das crianças!

Eu diria que desconhecemos mais de 99,9% da virosfera do planeta

A cobertura vacinal caiu 20% e, em 2019, o Brasil perdeu o certificado de país livre do sarampo que obtivera três anos antes. Como interpreta esse retrocesso?


Falta de coesão nos programas estaduais de vacinação junto ao PNI [Programa Nacional de Imunizações]. Infelizmente, os números das coberturas vacinais estão bem abaixo do recomendado e, além dessa falta de entrosamento entre governo federal, governos estaduais e municipais, esses movimentos antivacinas têm influenciado os pais vacinados e protegidos, de fazer o mesmo com seus filhos. Daí essa queda.


Se for possível usar uma porcentagem, qual percentual ainda desconhecemos dos vírus existentes no mundo?


Eu diria que desconhecemos mais de 99,9% da virosfera do planeta. Hoje temos catalogado cerca de 10 mil vírus e se estima que devam existir vários milhões de vírus, talvez até passe do bilhão. Portanto, temos pouco conhecimento sobre esses agentes de doenças.

OMS alerta que, caso não haja medidas de contenção, região pode alcançar mais de 400 mil mortes em outubro

A América Latina superou a marca de 2,5 milhões de pessoas contaminadas com o coronavírus. O Brasil de Fato fez um levantamento dos principais casos da região utilizando dados do Instituto Johns Hopkins, que também indica mais de 110 mil mortos por conta da doença na região.


Diretores da Organização Mundial da Saúde (OMS) na América Latina, durante entrevista coletiva nessa terça-feira (30), alertaram que a região pode alcançar 438 mil mortes até outubro, caso as medidas de contenção – como isolamento social e uso de máscaras – não sejam mantidas pelos governos locais. 


Durante a coletiva, Clarissa Etienne, diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), entidade vinculada à OMS, comemorou a estagnação dos dados em alguns países da região. 


“Vários países e territórios do Caribe conseguiram interromper completamente a transmissão e não notificaram novos casos por várias semanas, mas devem permanecer vigilantes nos próximos meses", informou Etienne. 


Em nota emitida no dia 24 de junho, a Opas alertou que a América Latina deve enfrentar surtos recorrentes de coronavírus até 2022. “Devemos ser realistas sobre o futuro: todos temos que nos adaptar a um novo modo de vida e redefinir nosso senso de normalidade.” 


Em números absolutos, o Brasil é o país mais afetado na região, com 1,3 milhão de infectados e 58 mil mortes, seguido pelo México, que tem 220 mil casos confirmados e 27 mil óbitos, e o Chile, com 216 mil contaminados e 4,7 mil vítimas fatais.


O Brasil de Fato destacou algumas informações básicas do avanço da pandemia na região e as ações assumidas pelos governos locais.

América do Norte e Central


México

Em número de óbitos na América Latina, após o Brasil, está o México, que registrou mais de 27 mil mortes desde que o vírus chegou ao país. Das 32 entidades federativas do país, 18 entraram na chamada fase laranja da quarentena. A medida vale, por exemplo, para a capital, Cidade do México, que concentra o maior número absoluto de casos e mortes. 


Algumas atividades econômicas e recreativas estão permitidas desde segunda-feira (29), mas com restrições. Hotéis, restaurantes, salões de beleza e parques podem abrir com 50% da capacidade normal. Supermercados podem operar, mas somente um membro de cada família pode acessar os espaços por vez. 


Em todos os casos, é obrigatório o uso de máscaras, álcool em gel para higienização e medição de temperatura. 


Onde há mais de trinta trabalhadores é preciso realizar testes semanais em pelo menos 5% deles. Pessoas com suspeita da doença não podem sair de casa antes que fiquem prontos os resultados dos exames. 


Outros 14 estados mexicanos seguem na fase vermelha da quarentena, com medidas restritivas que impedem abertura de comércio, ocupação mínima de espaços e controle ainda maior para os estabelecimentos essenciais, como supermercados.


Guatemala

Na Guatemala, o combate à pandemia foi marcado por polêmicas que terminaram com a demissão do ministro da Saúde do país, Hugo Monroy, há cerca de dez dias. Profissionais da saúde denunciaram a falta de equipamentos de proteção, além de hospitais lotados e muitos infectados entre os trabalhadores da área. 


O país já registrou mais de 17,4 mil infectados e contabiliza mais de 740 mortos. No domingo (28), o presidente Alejandro Giammattei anunciou medidas que estarão vigentes pelos próximos 15 dias, numa tentativa de diminuir a curva de contágio. 


Com toque de recolher entre 18h e 05h da manhã, de segunda a sábado, aos domingos o confinamento é total e obrigatório. Há restrições ainda para o trânsito de veículos particulares e esquemas de rodízio. Reuniões de todo o tipo estão proibidas.


Se não houver melhora nos números em duas semanas, medidas mais restritivas deverão ser anunciadas. 


Panamá

Outro país centro-americano, o Panamá viu o número de casos crescer consideravelmente após afrouxar as medidas de restrição de circulação, que valiam desde o fim de março. Comércio e serviços foram autorizados a retomar as atividades em meados de maio. No começo de junho, foi a vez da indústria e do setor público. 


Com isso, as regiões mais pobres da nação, que concentram boa parte dos trabalhadores, passaram a registrar dados alarmantes. As infecções diárias estavam abaixo de 200 durante o isolamento, mas, na segunda-feira (30), passaram de mil. 


O número de pacientes em terapia intensiva aumentou quase 50% em maio. O governo se viu obrigado a retomar a quarentena na capital, Cidade do Panamá.


Honduras

Com quase 19 mil infectados e 500 mortos, a situação dramática de Honduras é exposta nas palavras do presidente Juan Orlando Hernández. Durante uma conferência com ministros na sexta-feira (26), ele afirmou que o cenário se complica a cada dia. O próprio Hernández foi infectado pela covid-19. 


Autoridades de saúde do país alertam para o estrangulamento da capacidade de atendimento no sistema de saúde. Ainda assim, a situação econômica de parte da população impede o cumprimento de medidas restritivas.


Na semana passada, imagens de corpos ensacados em corredores no Hospital Estadual Escola, o principal do país, foram publicadas na internet. O sindicato dos trabalhadores da unidade denuncia falta de material de proteção e necrotério sem sistema de refrigeração. Pacientes estão sendo atendidos em tendas improvisadas. 


Segundo a associação de funerárias hondurenha, o número de mortos pode ser até cinco vezes maior que o oficial. 


El Salvador

Em El Salvador foi registrado recorde de novos casos nas 24 hora entre segunda (29) e terça-feira (30). Os registros oficiais apontam mais de 6 mil e 400 casos. Mais da metade foi registrada somente no mês de junho. Segundo o governo, a situação foi potencializada pelo deslocamento forçado de pessoas atingidas por duas tempestades tropicais no fim de maio.


No entanto, o país está na primeira fase de um plano de reabertura das atividades econômicas desde 16 de junho. Isso inclui o funcionamento de setores da construção, manufatura e têxtil, aeronáutica, portos marítimos, serviços de contabilidade e advocacia de negócios e investimentos, além de serviços de comércio on-line, impressão e consultas médicas e de enfermagem. Com o aumento nos números, o Ministério da Saúde já anunciou que o país não vai avançar para a segunda fase de abertura.


Caribe


Cuba

Em Cuba, um sistema criterioso de vigilância sanitária tem mantido os números em patamares baixos. Toda a população recebe a visita de equipes médicas diariamente, que investigam as condições de moradia, qualquer tipo de novo sintoma – mesmo que não relacionado à covid-19 – e eventuais novas infecções. 


Além do isolamento de casos suspeitos, toda a rede de contatos dos pacientes entra em esquema de controle e os curados recebem tratamento posterior para combate a sequelas. 


A ilha registrou até agora 2.341 casos e 86 mortos. A população de 11,3 milhões de habitantes é estimulada a ficar em casa e o transporte coletivo está suspenso. 


Haiti

No vizinho Haiti, no entanto, a situação é diferente. Oficialmente o país tem quase 6 mil casos e mais de 100 mortes, mas a subnotificação pode esconder um cenário ainda mais complicado para os pouco mais de 11 milhões de habitantes. 


Há relatos de infectados que não procuram o sistema de saúde e acabam morrendo em casa. Além disso, o país passa por instabilidades políticas desde 2016, com a eleição do presidente Jovenel Moïse. 


Com uma política neoliberal, o mandatário aprofundou a crise econômica na região. Em protestos, a população reclama da falta de medidas de combate ao novo coronavírus e o isolamento esbarra em problemas como a informalidade dos trabalhadores e as condições de habitação precárias. 


Porto Rico

Território dos Estados Unidos, a ilha de Porto Rico tem registros ainda maiores da covid-19, São mais de 7 mil casos e pelo menos 150 mortes. A explicação pode estar na quantidade maior de testes aplicados em relação ao Haiti, por exemplo. 


Ainda assim, existem críticas também à abertura das atividades econômicas, que começou no início de junho. O país mantém um toque de recolher, mas reabriu cinemas, teatros, academias, praias e até mesmo spas. 


República Dominicana

A República Dominicana se preparava para reabrir as atividades turísticas na primeira semana de julho, frente a um número de infectados que chega a quase 32 mil pessoas. No entanto, o Ministério da Saúde divulgou uma série de restrições nesta terça-feira (30).

 

Estão proibidos eventos com aglomerações e o funcionamento de cassinos, cinemas e teatros. Os hotéis e restaurantes podem funcionar com restrições de público. Mesmo com os números da covid-19, o país não adiou as eleições presidenciais, marcadas para o próximo domingo (5).


América do Sul


Venezuela

Na Venezuela, que vinha flexibilizando medidas de isolamento desde 1º de junho, os números apresentaram escalada. Frente ao cenário, o governo do presidente Nicolás Maduro anunciou o fechamento do metrô da capital Caracas e limitou o tráfego nas rodovias. 


Em cerca de três semanas, os registros de infectados passaram de pouco de 1,6 mil para mais de 5,5 mil. Foram confirmadas 48 mortes até o momento. 


Primeira nação do continente a decretar quarentena em todo o território nacional e o fechamento de fronteiras, a Venezuela tem atuado também no controle das condições de saúde dos seus cidadãos que decidem voltar ao país por meio de corredores humanitários terrestres e aéreos. 


O governo informou que cerca de 80% dos casos são de pacientes que chegaram de outras nações durante a pandemia.


Colômbia

A Colômbia tem hoje mais de 90 mil casos confirmados da covid-19 e os óbitos superam 3,2 mil. O governo anunciou na semana passada que a quarentena será mantida até pelo menos 15 de julho. 


Havia previsão de retomada das atividades no início do mês e alguns comércios não essenciais já estavam operando. Mesmo com os números expressivos de casos e mortes, os municípios em que não foram registrados infectados poderão entrar em um plano piloto que prevê abertura de igrejas e restaurantes.


Equador

Logo no início dos registros do vírus no continente, a cidade de Guayaquil, no Equador, se tornou símbolo do drama da pandemia. O município portuário chegou a ser o mais atingido da América do Sul. Imagens e relatos de corpos nas ruas e famílias sem assistência percorreram o mundo. Na época, mais da metade dos casos do país tinham origem na cidade. 


Os números se estabilizaram, mas o desafio ainda permanece frente a um sistema de saúde sem capacidade de atendimento. Hoje, o Equador tem mais de 55,6 mil confirmações da doença e 4,5 mil casos fatais. 


Durante o mês de julho, o país passa a colocar em prática medidas de retomada da economia, dividindo os municípios em três fases. Mas, mesmo nas cidades que terão medidas menos restritivas, restaurantes e shoppings só poderão atender a 50% da capacidade. 


Nenhuma reunião com mais de 25 pessoas e sem condições de distanciamento de dois metros será permitida e a circulação de carros será feita em esquema de rodízio. 


Nas cidades em alerta rígido será mantido o toque de recolher e agrupamentos de qualquer número estarão proibidos. Somente 30% da força de trabalho serão autorizados a atuar presencialmente.


Peru

Sexto do mundo com maior número absoluto de casos, o Peru adotou a quarentena mais cedo que a maior parte das nações. No entanto, diante dos cerca de 70% de trabalhadores informais e de um sistema de saúde despreparado, o país tem a segunda pior situação da América Latina. 


Em alguns períodos, o registro total de mortes superou os números de 2019 em mais de 80%. O governo estabeleceu auxílio para os profissionais autônomos, mas como boa parte deles não possui conta em banco, as aglomerações em agências se tornaram grandes focos de contágio. 


As condições de conservação de alimentos em casa são precárias, o que obrigou a população a continuar frequentando mercados e feiras. Segundo o próprio governo, em alguns desses locais, mais de 80% dos trabalhadores se infectaram. 


A precariedade nas estruturas de moradia e a aglomeração de famílias em espaços pequenos impediu o isolamento em muitas regiões. 


O Peru já vive um processo de retomada das atividades econômicas, mas sete regiões onde vivem mais de 6 milhões de pessoas seguem em quarentena rígida, com funcionamento apenas de serviços essenciais. 


Em todo o país, as aulas seguem suspensas e o toque de recolher será mantido. O confinamento obrigatório para menores de 14 anos, maiores de 65 e doentes crônicos também continuará. 


Bolívia

Na Bolívia, são mais de 32 mil infectados em uma população de 11,35 milhões de pessoas. Nessa semana, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos divulgou uma carta pública em que expressava consternação pelos registros de mortos em vias públicas e pacientes sem atendimento. 


A informalidade, que atinge mais de 60% da população, também é um dos grandes obstáculos. Por dois meses, o governo conseguiu manter políticas de isolamento, mas as dificuldades econômicas impossibilitaram a continuidade do processo. 


A capacidade do sistema funerário também está limitada e há relatos, não confirmados oficialmente, de famílias enterrando mortos nos próprios terrenos em que moram. 


O país vem enfrentando também índices altos de contrabando de medicamentos usados no tratamento da covid-19 e que estão sendo ingeridos pela população sem orientação médica. Denúncias de venda de plasma também acendem o alerta das autoridades.


Chile

A desigualdade social e a falta de atenção às populações periféricas fez com que o Chile se tornasse o sétimo país do mundo com o maior número de infectados e o terceiro na América Latina. 


Atualmente, os registros de infectados são superiores a  276 mil e as mortes ultrapassam 5,6 mil, mas o próprio governo admite que esse número pode ser superior a 8 mil. Em junho, quase metade dos óbitos no país tiveram a covid-19 como causa. 


Enquanto a pandemia se concentrava entre as classes mais ricas, a testagem em massa e a quarentena seletiva surtiram efeitos. Mas a partir do momento em que as populações mais pobres, sem trabalho formal e sem acesso a assistência social, começaram a ser atingidas, a situação mudou. 


O setor da mineração, por exemplo, nunca parou. A desigualdade se expressa nitidamente nas diferenças das taxas de mortalidade entre hospitais públicos e privados. Os primeiros registram até o dobro de casos fatais.  


Paraguai

O cenário é menos preocupante no Paraguai, que tem o menor número de vítimas fatais de todo o continente americano. Os infectados estão acima de 2 mil pacientes, mas foram registrados 16 óbitos até o momento. 


Em fevereiro, antes da chegada do novo coronavírus nas Américas, o governo suspendeu a emissão de vistos para visitantes da China. Cerca de um mês depois, com o registro de apenas dois casos, foi decretada quarentena nacional, com suspensão de aulas, proibição de eventos e toque de recolher. 


Na ocasião, a OMS não havia nem mesmo declarado estado de pandemia global. Ciente da insuficiência do sistema de saúde para lidar com o descontrole de casos, o poder público atua para o controle máximo das infecções. 


Atualmente, o Paraguai vive um processo de retomada das atividades econômicas, mas as medidas são graduais e limitadas por fases. Além disso, o país mantém fechadas as fronteiras terrestres e o Exército controla a entrada de estrangeiros. 


Uruguai

Um dos países com a situação menos crítica em toda a América Latina, o Uruguai colhe os frutos de 15 anos de investimentos consistente em assistência social, durante governos de esquerda. 


Até agora, os registros de morte não passam de 30 e o número de infectados é inferior a mil. A população conta com assistência médica de qualidade e tem as menores taxas de pobreza da região. 


Frente ao avanço da pandemia pelo continente, o governo fechou as fronteiras antes dos vizinhos e proibiu o acesso ainda em 1° de março. 


Com população de apenas 3,5 milhões habitantes e condições econômicas de isolamento, a quarentena também cumpriu um papel essencial. As aulas seguem suspensas em regiões com maior número de casos, mas mesmo onde foram retomadas, a presença dos alunos fica a critério dos pais e foi limitada a patamares menores que os anteriores. 


Argentina

A Argentina enfrenta a pandemia com a economia em frangalhos após o governo radicalmente neoliberal do ex-presidente Mauricio Macri. Eleito em 2019, o novo presidente Alberto Fernández, de esquerda, não hesitou em determinar o fechamento do país e o isolamento social, mesmo frente à necessidade de reconstrução econômica. 


O poder público baseou todo o discurso de combate à covid-19 na proteção à saúde da população. No entanto, as regiões periféricas da capital Buenos Aires ainda sofrem com a propagação da doença. 


O país tem hoje mais de 62 mil casos e cerca de 1,2 mil mortes, em um universo de 44,5 milhões de habitantes. 


Mais de 90% dos registros estão na região metropolitana da capital. Havia expectativa de reabertura gradual, mas diante da escalada de novos casos em poucos dias, o governo determinou novamente isolamento total para a região. Pelo menos até 15 de julho, somente os serviços essenciais poderão funcionar e a polícia estará nas ruas para controle da circulação.


As palavras de Alberto Fernández ao anunciar mais uma fase de restrições rígidas dão o tom do caminho seguido pelas nações que enfrentam as situações menos graves na América Latina: “Uma economia que cai pode ser levantada, uma pessoa que morre, não".


As diferenças entre os que conseguiram controlar o avanço do coronavírus são muitas. Do Uruguai com grandes investimentos sociais por décadas, ao Paraguai que admite a fragilidade do próprio sistema de saúde, passando pela Argentina com a economia extremamente comprometida: quem demonstra sucesso em proteger o povo aposta primeiro nas vidas, na educação e na informação para o combate à doença. 


Estudiosos identificaram linhagem que tem origem no continente africano. Vigilância e prevenção devem ser constantes

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou nesta semana a identificação no Brasil de uma linhagem do vírus zika que até então não havia circulado no país. A descoberta acende o alerta para a presença de mais uma variedade do microrganismo, diferente da que causou a emergência em saúde registrada em 2015.


Até 2018, o vírus em circulação no país tinha origem asiática. Agora, os pesquisadores identificaram uma cepa que veio do continente africano nas regiões Sul e Sudeste. A transmissão é feita pelo mosquito Aedes albopictus, que se propaga de maneira semelhante ao Aedes aegypt, responsável pela transmissão da dengue.


Uma das autoras da descoberta, Larissa Catharina Costa, que atua no Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fiocruz, conversou com o programa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, sobre as medidas de prevenção e vigilância para evitar uma nova onda de propagação.


O novo vírus

De acordo com a pesquisadora, os efeitos do novo vírus no corpo humano ainda estão em estudo, no entanto, os cuidados precisam ser mantidos.  “Ele acabou de chegar ao Brasil. Nos percebemos a presença dele em 2019 e a gente não sabe o quão grave ele vai ser e os acometimentos que ele pode trazer.”


Larissa ressalta também que não há garantias de imunidade entre a população que foi infectada pelo vírus anterior. “É algo especulativo. Quando você tem a doença, você desenvolve anticorpos. Mas a gente não sabe se os anticorpos direcionados para a linhagem asiática vão proteger o indivíduo caso ele tenha a linhagem africana. Isso é muito novo ainda.“

A gente não sabe o quão grave ele vai ser e os acometimentos que ele pode trazer.

Transmissão

A estudiosa lista as formas de transmissão, que são muito parecidas com as identificadas nos casos da dengue, do zika asiático e da chikungunya. “A transmissão acontece por meio da picada do Aedes aegypt ou do primo dele – onde foi isolada uma das nossas amostras – o Aedes albopictus.


"Há também a transmissão por meio da relação sexual e, além disso e da mãe para o feto, que normalmente ocorre nos primeiros três meses de gestação. Essa é a que impacta mais, por conta da ocorrência da microcefalia ou de outros acometimentos neurológicos", acrescenta.


Sintomas e prevenção

Os sinais da doença ainda estão em estudo, mas a cientista da Fiocruz informa que a tendência é de que eles sejam semelhantes aos sintomas da linhagem asiática. É preciso ficar atento a vermelhidão e coceira no corpo, dores musculares, dor de cabeça, dor nas juntas, conjuntivite sem secreção e febre – mesmo que leve.


A prevenção também passa por hábitos que já são velhos conhecidos do Brasil e o cuidado precisa ser coletivo. “São as mesmas medidas que nós já conhecemos. Evitar o acúmulo de água em pneus, garrafas pet, garrafas de vidro, colocar areia nos pratinhos de plantas. Você não tem que olhar só para você, tem que olhar ao seu redor. Às vezes você faz sua medida, você previne, mas o vizinho não. Então, alerte o seu vizinho. É algo vigilante, tem que sempre estar alerta.”


Neste ano mais de 3,6 mil prováveis casos do vírus da zika foram registrados no Brasil. Os dados do Ministério da Saúde mostram ainda que as infecções por dengue chegam a 823.738 de dengue e por chikungunya a 47.105. 


Fonte: Brasil de Fato / Foto: Divulgação

leandro.neutzlingbarbosa@gmail

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